Lição 9 - Coragem para testemunhar: Paulo diante da multidão V

Imprimir

ASSEMBLEIA DE DEUS - IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS EM PERNAMBUCO

PORTAL ESCOLA DOMINICAL

TERCEIRO TRIMESTRE DE 2026

Adultos - A IGREJA DOS GENTIOS: Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos

COMENTARISTA: Wagner Tadeu dos Santos Gaby

COMENTÁRIO: SUPERINTENDÊNCIA DAS EBD'S DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS EM PERNAMBUCO

 

LIÇÃO Nº 9 – CORAGEM PARA TESTEMUNHAR: PAULO DIANTE DA MULTIDÃO

INTRODUÇÃO

Nesta lição, com base em Atos 21–22, estudaremos a chegada de Paulo a Jerusalém, seu confronto com os judeus, sua prisão no templo e seus primeiros discursos de defesa. Nesse contexto, veremos como o apóstolo fundamenta sua defesa em sua identidade judaica e em seu encontro com Cristo, legitimando sua vocação apostólica e a missão aos gentios. Ao final, refletiremos sobre a fidelidade e a prudência missionária, destacando o testemunho pessoal como instrumento apologético e pastoral diante da oposição.

I – A ESTRUTURA HISTÓRICO-LITERÁRIA

Antes de analisar os acontecimentos, é importante compreender o contexto histórico e literário de Atos 21–22. Lucas organiza essa narrativa para mostrar que a prisão de Paulo não representa um fracasso da missão, mas o cumprimento do propósito soberano de Deus.

1.1 Contexto literário e narrativo. Atos 21–22 faz parte da grande seção da “subida de Paulo a Jerusalém”, que culmina em sua prisão, defesa pública e progressiva transição missionária rumo a Roma. O capítulo 21 narra o caminho de Paulo até Jerusalém, com advertências proféticas sobre sofrimento, enquanto o capítulo 22 apresenta sua defesa diante da multidão judaica. O conjunto mostra que a missão apostólica não avança por fidelidade ao chamado de Deus em meio à rejeição.

1.2 Tema central. O eixo hermenêutico de Atos 21–22 é a fidelidade de Paulo à vontade de Deus, mesmo quando essa fidelidade o coloca em choque com expectativas religiosas, acusações injustas e riscos reais de morte. O texto ensina que sofrimento não é sinal de infidelidade; pode ser, precisamente, o caminho da obediência apostólica. Em vez de apresentar Paulo como um rebelde contra a tradição, Lucas mostra-o como alguém que cumpre a missão recebida do Senhor ressuscitado.

1.3 A obediência a Deus envolve sofrimento. Paulo sabia, por revelação, que iria a Roma: “Mas Paulo respondeu: Que fazeis vós, chorando e magoando-me o coração? Porque eu estou pronto não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus. E, como não podíamos convencê-lo, nos aquietamos, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor!” (At 21.13-14). Mesmo preso, Paulo recebe permissão para falar à multidão. O capitão romano permite que ele se justifique, e Deus usa essa situação para que Paulo pregasse. O Senhor tem maneiras de fazer com que se cumpram os Seus propósitos, assim, a prisão não é um acidente, mas parte do plano divino para levar o testemunho do Evangelho de Cristo a Roma: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Rm 8.28). O princípio é que a obediência ao chamado de Deus pode levar ao sofrimento, e o cristão deve estar disposto a ser mártir se necessário (Lc 9.23-26).

II – A CONTINUIDADE E O CONFLITO ENTRE LEI E EVANGELHO

A chegada de Paulo a Jerusalém evidencia um dos maiores desafios da Igreja Primitiva: a relação entre a Lei de Moisés e o Evangelho de Cristo. Esse conflito revela tanto a continuidade do plano divino quanto a resistência à inclusão dos gentios na comunidade da fé.

2.1 A continuidade e o conflito entre Lei e Evangelho. Os judeus acusaram Paulo de ensinar contra a Lei de Moisés, especialmente, dizendo que os gentios não deveriam seguir as tradições judaicas. Essa acusação revela o tensionamento teológico central de Atos: o evangelho de Cristo não exige que os gentios se tornem judeus para serem salvos. A prisão de Paulo ocorre porque ele foi visto trazendo gentios ao templo (acusação falsa, mas que reflete sua missão real). Isso demonstra que a teologia de Paulo, de que os gentios são incluídos no povo de Deus sem precisar guardar a Lei, era o cerne do conflito (Gl 3.6-10). Segundo Lima (2023, p. 174175): “Paulo em Gl 3.1–4.31 argumenta que os gentios são descendentes de Abraão e filhos adotivos de Deus por meio da Fé em Cristo. Para tal intento, não se serve mais de dados autobiográficos, mas da experiência da fé dos gálatas após o batismo e de textos do Antigo Testamento, sobretudo do ciclo das narrativas de Abraão para comprovar seus argumentos. Abraão é evocado como aquele que creu, que recebeu as promessas e são mencionados seus dois filhos Ismael, filho da escrava Agar, e Isaac, filho da mulher livre, Sara”. Dessa forma, o princípio teológico é que a missão universal do Evangelho é ordem divina, mesmo quando enfrenta resistência.

2.2 A conversão como argumento para o testemunho cristão. Em Atos 22.1–7, Paulo narra sua conversão como perseguidor dos cristãos, mas Jesus encontrou-o no caminho de Damasco, iluminou sua mente e chamou-o para servir como apóstolo dos gentios. No relato da conversão, Paulo diz: “Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu. E caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu persegues” (At 22.6-8), e depois foi instruído a ir a Damasco, onde receberia mais direções. Isso mostra que Deus dirige, pessoalmente, a missão do cristão. O princípio é que a missão cristã nasce da revelação divina, não de iniciativa humana.

2.3 O conflito no templo (At 21.27–36). A prisão de Paulo ocorre por acusações falsas e por agitação coletiva. A presença de Tíquico no templo desencadeia a acusação de profanação, embora o texto mostre que isso se baseia em suposição e hostilidade, não em prova. O templo era dividido em vário átrios: “Os gentios tinham licença para penetrar no átrio externo, o ‘átrio dos gentios’, mas eram impedidos de proceder mais além, para o ‘átrio das mulheres’, e muito menos para o ‘átrio de Israel’, por uma barreira baixa que ostentava avisos em Grego e Latim com os dizeres: ‘Nenhum estrangeiro pode atravessar a barricada que cerca o templo e seu recinto. Qualquer pessoa presa ao assim fazer será a culpada pela sua morte que se seguirá’” (Marshall, 2001, p. 324). Assim, o templo aparece como lugar de conflito entre pureza ritual, identidade nacional e a expansão do Evangelho. A multidão reage por uma interpretação, supostamente, de ameaça identitária.

III – OS ARGUMENTOS DO TESTEMUNHO DO APÓSTOLO PAULO E A VOCAÇÃO MISSIONÁRIA

Diante das acusações, Paulo transforma sua defesa em uma poderosa oportunidade de testemunho. Seu discurso demonstra que a verdadeira vocação missionária nasce do encontro com Cristo, é dirigida por Deus e permanece firme mesmo em meio à oposição.

3.1 Defesa autobiográfica (At 22.1–21). O discurso de Paulo tem três grandes blocos: sua identidade judaica, sua experiência de conversão e sua vocação aos gentios. Ele fala em hebraico/aramaico para ganhar atenção e construir ponte com o auditório. A estratégia retórica é muito importante: Paulo não começa atacando, mas narrando sua história como prova de continuidade entre sua fé anterior e sua fé em Cristo, Ele afirma sua formação farisaica e zelo pela Lei; relata o encontro com Jesus como iniciativa divina, não autoiluminação psicológica; mostra que Ananias, um judeu piedoso, confirma sua vocação. Assim, seu chamado culmina na missão aos gentios. O ponto hermenêutico mais forte é este: a conversão de Paulo não destrói o judaísmo como história de Deus; ela revela seu cumprimento em Cristo.

3.2 O escândalo dos gentios (At 22.22–29). A multidão tolera o discurso até o momento em que Paulo menciona sua missão aos gentios. A reação violenta mostra que o problema não é, apenas, teológico, mas identitário e étnico. O evangelho universal confronta fronteiras de exclusão. A ordem romana entra novamente como instrumento providencial para evitar a morte de Paulo e para preparar uma audiência mais formal. A oposição surge quando a Graça é estendida além das fronteiras étnicas. O evangelho revela e desestabiliza privilégios religiosos. A cidadania romana de Paulo funciona como recurso providencial de proteção e testemunho dados por Deus.

3.3 Providência e missão (At 22.30). O capítulo termina com Paulo sendo levado à presença das autoridades para julgamento. Lucas prepara a sequência narrativa: o testemunho cristão avança de Jerusalém para o mundo gentílico. Assim, a prisão não é o fim da missão, mas o meio pelo qual Deus conduz sua testemunha a novos espaços.

3.4 A vocação missionária é direcionada por Deus para enfrentar oposição. Segundo o texto: “E disse-me: Vai, porque hei de enviar-te aos gentios de longe. E ouviram-no até esta palavra e levantaram a voz, dizendo: Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva!” (At 22.21-22). Mesmo assim, Paulo persevera. Sua defesa diante do povo, mesmo sob risco de morte, mostra que a vocação missionária não é suspensa pela oposição; ela é cumprida apesar dela: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece. Lembrai-vos da palavra que vos disse: não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardarem a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15.19-20).

3.5 A vocação é universal: levar o evangelho a todos. Paulo teria que testemunhar diante de todos: “Porque hás de ser sua testemunha para com todos os homens do que tens visto e ouvido” (At 22.15). A vocação missionária não é limitada a um grupo; é universal. Paulo é enviado aos judeus e gentios: “Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem, o qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo. Para o que (digo a verdade em Cristo, não minto) fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios, na fé e na verdade” (1Tm 2.3-7).

CONCLUSÃO

Esses capítulos revelam que o Evangelho alcança os gentios, que a obediência a Deus pode conduzir ao sofrimento e que o Senhor usa até a prisão para cumprir Seus propósitos. Destacam ainda o poder do testemunho pessoal como instrumento de edificação, capaz de fortalecer a fé, superar preconceitos e incentivar a perseverança diante da perseguição. Assim, a experiência de Paulo em Jerusalém torna-se um modelo histórico, hermenêutico e pastoral de fidelidade sob oposição, ensinando que o sucesso visível não é a medida da fidelidade e que, muitas vezes, a oposição resulta da firmeza no cumprimento da vocação missionária.

REFERÊNCIAS • GABY, Wagner. A Igreja dos gentios: da chamada missionária à consolidação do evangelho entre os povos. CPAD.

• GUTHRIE, Donald. Gálatas: introdução e comentário. Vida Nova.

• LIMA, Marcone Felipe Bezerra de. A tese e os argumentos da carta de Paulo aos Gálatas segundo Agostinho: o Sola Fide na Doutrina da Justificação. Editora IGP.

• MARSHALL, Howard. Atos: introdução e comentário. Vida Nova.

• STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.

Fonte: https://redebrasiloficial.com.br/licao_ebd.php Acesso em 23 de Ago de 2026